Ensaio sobre a loucura

segunda, 24/nov/2008 às 07:09 por Vanderlei Martinelli

Estou para descobrir que sou louco. E que a tentativa de convencer, parecer ou acreditar que sou normal é o que tem me deixado exausto. As pessoas são soltas pelo mundo e acreditam em sua sanidade. Alguns param em manicômios, outros tornam-se médicos. Como avaliar quem é mais normal que quem? Ou quem é mais louco? Os incontáveis graus de loucura e sanidade não formariam um lindo dégradé? Todas as cores do mundo. Quem pode afirmar-se são?

Descobrimos que o universo está em expansão. Que as estrelas nascem e morrem. Um dia o Sol vai morrer. A Terra viaja em círculos numa velocidade estonteante em volta dessa estrela. E gira em torno de si. E as pessoas batem seu cartão de ponto. Casam-se, compram TV e o que vêem na TV. Cada um em seu dia, um por um de nós morrerá. Ainda não aprendemos a lidar com terremotos, nem grandes quantidades de chuva. Tampouco a ausência dela. O que é evolução? O que é sanidade?

Precisamos de um governo e de leis porque cada um de nós se nega a assumir a responsabilidade sobre o que sabemos. Sabemos desde sempre o que é certo e o que é errado fazer. E, no entanto, matam e roubam... Corrompem. Inventamos o dinheiro. Inventamos que não há o suficiente pra todo mundo. Inventamos uma sociedade e criticamos as antigas, de onde viemos. Mesmo destino para o qual vamos. Inventamos Deus para negar nossa própria capacidade de criar milagres. Temos de colocar a culpa em alguém, até pelo que é belo. Quem são os loucos?

Tenho tido muito medo de encarar minha insanidade. Admiti-la. Só consigo fazer as coisas, me mover, se fizer sentido. Mesmo que não faça sentido para mais ninguém. A paixão é em si um sentido. Talvez o principal, que me move. É por causa dela que me movo. E movo, céus e terra. Os milagres então acontecem. Mas entendo os catatônicos. Para quê se mover se para eles o sentido e a paixão se perderam? Passaram a enxergar ou ficaram completamente e derradeiramente cegos?

O pavor está em descobrir que o sentido não existe. A paixão, inventada, para que se mova mais adiante? Estou mais próximo de descobrir a verdade. Ela me aniquilará. Meu corpo talvez continue, mas eu morrerei. Pode vir a ser o contrário. E na total ausência de tudo, qualquer desejo, engodo ou ilusão, descobrir o primordial sentido. E então estarei leve, finalmente. E livre. Não sei se já existo ou ainda estou por nascer.


Agradecimento

terça, 26/ago/2008 às 15:13 por Vanderlei Martinelli

Nunca o chamei pelo nome. Acho que não é um nome bonito. Não, não é isso. "Modesto"? Modesto é aquele que é sem precisar dizer ser. Ele nunca foi. O chamava de "pai" talvez pela esperança que um dia viesse a ser. Mas também não é isso. Reparando bem... Não me recordo de alguma vez tê-lo ouvido me chamar de "filho". Acho que é isso. Para ele sempre foi uma coisa resolvida. Filhos eram os outros. De outras mulheres, ou de outras circunstâncias. É possível ter muitos filhos. Pra mim era aquele quadro inacabado.

Nos raros encontros, limitava-se a me chamar de "Derlei". Era uma provocação? Quem gostaria de um apelido desses? Mas não era. Não nos incomodamos em provocar quem não nos interessa. E o problema não era com os nomes. Era com os olhares. Aqueles olhos sempre estiveram longe de mim. Eu olhava diretamente os olhos que fugiam. Numa face estranhamente parecida com a minha, de uma pessoa completamente estranha e alheia. O pior dos meus inimigos saberia quem eu sou; e, talvez por isso mesmo, meu inimigo. Ele não sabia. Nem se preocupava em saber.

Poderia ter me levado para pescar ou me ensinado a gostar de futebol. Mostrar como é que se faz a barba ou me dar conselhos na primeira paixão não correspondida... Essas seriam as coisas fáceis. Seria pai mesmo sem isso, caso escolhesse ser. Escolheu outra coisa. A primeira vez, por imaturidade, por medo? Na segunda tentou justificar apenas o justificável. Mesmo não justificando, faltou dizer o que realmente importava. Poderia escolher aprender a ser quem nunca foi. Ou então, corajosamente, admitir que jamais quis ser, nem nunca seria.

É claro que eu esperava um pedido de desculpas sincero. Mas poderia dar-me outra coisa tão valiosa quanto. Faltou a generosidade, que não se nega nem a um estranho, de conceder a liberdade: "Olha, esquece disso. Você não é meu filho. Nunca será. Nem eu, seu pai. Você foi um acidente. Dê a mim a mesma importância que dou a você, ou seja, nenhuma." Um covarde é um ignorante da coragem. Quem a sabe possível, é ainda pior.

Então escolhi ser livre por mim mesmo. Ao meu "pai", apenas pena. Num futuro talvez nem lembrança. Perdeu infinitamente mais que eu. E eu... Não perdi nada. Aliás, ganhei. A ausência de alguém assim só pode ser um presente. Então, senhor Modesto: muito obrigado por não ser meu pai.


Copyright © 2008 Vanderlei Martinelli. Todos os direitos reservados.