Nunca o chamei pelo nome. Acho que não é um nome bonito. Não, não é isso. "Modesto"? Modesto é aquele que é sem precisar dizer ser. Ele nunca foi. O chamava de "pai" talvez pela esperança que um dia viesse a ser. Mas também não é isso. Reparando bem... Não me recordo de alguma vez tê-lo ouvido me chamar de "filho". Acho que é isso. Para ele sempre foi uma coisa resolvida. Filhos eram os outros. De outras mulheres, ou de outras circunstâncias. É possível ter muitos filhos. Pra mim era aquele quadro inacabado.
Nos raros encontros, limitava-se a me chamar de "Derlei". Era uma provocação? Quem gostaria de um apelido desses? Mas não era. Não nos incomodamos em provocar quem não nos interessa. E o problema não era com os nomes. Era com os olhares. Aqueles olhos sempre estiveram longe de mim. Eu olhava diretamente os olhos que fugiam. Numa face estranhamente parecida com a minha, de uma pessoa completamente estranha e alheia. O pior dos meus inimigos saberia quem eu sou; e, talvez por isso mesmo, meu inimigo. Ele não sabia. Nem se preocupava em saber.
Poderia ter me levado para pescar ou me ensinado a gostar de futebol. Mostrar como é que se faz a barba ou me dar conselhos na primeira paixão não correspondida... Essas seriam as coisas fáceis. Seria pai mesmo sem isso, caso escolhesse ser. Escolheu outra coisa. A primeira vez, por imaturidade, por medo? Na segunda tentou justificar apenas o justificável. Mesmo não justificando, faltou dizer o que realmente importava. Poderia escolher aprender a ser quem nunca foi. Ou então, corajosamente, admitir que jamais quis ser, nem nunca seria.
É claro que eu esperava um pedido de desculpas sincero. Mas poderia dar-me outra coisa tão valiosa quanto. Faltou a generosidade, que não se nega nem a um estranho, de conceder a liberdade: "Olha, esquece disso. Você não é meu filho. Nunca será. Nem eu, seu pai. Você foi um acidente. Dê a mim a mesma importância que dou a você, ou seja, nenhuma." Um covarde é um ignorante da coragem. Quem a sabe possível, é ainda pior.
Então escolhi ser livre por mim mesmo. Ao meu "pai", apenas pena. Num futuro talvez nem lembrança. Perdeu infinitamente mais que eu. E eu... Não perdi nada. Aliás, ganhei. A ausência de alguém assim só pode ser um presente. Então, senhor Modesto: muito obrigado por não ser meu pai.